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Assista ao curta-metragem “Água”: Banda da Portaria e André Abujamra

Em tempos sombrios, a Banda da Portaria lançou com André Abujamra o curta-metragem “Água”, disponível gratuitamente no Youtube. O curta faz uma crítica aos agressores da Amazônia, defende os povos da região e presta uma bela homenagem ao jornalista britânico Dom Phillips (57) e ao indigenista brasileiro Bruno Pereira (41), assassinados em Atalaia do Norte, no Vale do Javari, no Amazonas, em 5 de junho por  protegerem a floresta.

O filme também destaca a agressão às mulheres, crianças e a natureza exuberante da região amazônica. Em uma breve entrevista com Vitor Miranda, um dos integrantes da Banda da Portaria e produtor do curta, o artista falou um pouco sobre o poema que inspirou o filme.

Curta-metragem “Água”

Vitor, por que matar o mito?

Matar o mito é acabar com uma crença numa mentira que está fazendo mal para o país. Eu convivo com pessoas que acreditam nesse mito e já não as reconheço. Se eu acreditasse em mitos e religiões diria que elas estão possuídas por demônios. E o demônio nada mais é que uma cultura que nem foi inventada por esse que aí está. Tudo que ele simboliza já existia antes. Ele, seus filhos, seus gurus e o cavalo branco do apocalipse apenas agruparam em sua imagem coisas como a blasfêmia, o racismo, a homofobia, a xenofobia, a misoginia e com uma habilidade cruel transformam pessoas em burras. E eu fico triste com isso. Por não conseguir mais identificar quem é robô e quem é pessoa. 

E como se mata um mito?

Geralmente matando as pessoas que acreditam nesse mito, mas nenhum povo conquistador conseguiu eliminar uma cultura. Nossos bairros, nossos rios têm nomes indígenas. O catolicismo tem santos por causa da mistura do monoteísmo com os conquistadores politeístas. Então não queremos matar ninguém. Queremos um mundo, um país, com esse sentimento de paz, de amor, da convivência pacífica entre as pessoas que pensam diferente. Queremos a natureza preservada e não assassinada. Queremos que os povos das florestas estejam em paz. Queremos Brunos e Doms vivos nos contando essas histórias de paz e não histórias de assassinatos em razão de explorar algo que deveria ser protegido pelo Governo Federal e não atacada como é atacada pelo presidente em exercício. Espero que ele seja devidamente preso após cumprir seu mandato não só pelos crimes contra a Amazônia, mas também por seus crimes de ódio, de fake news e pelo seu comportamento durante a pandemia do coronavírus. 

Como é pra vocês fazer arte com André Abujamra?

Veja só, pra nós é uma felicidade estar dialogando artisticamente com uma das maiores referências da música brasileira. Como produtor de trilhas sonoras, por suas bandas, por seu trabalho solo autoral e seu trabalho no teatro, no cinema, atuando, a gente tem que agradecer a existência desse ser. E a gente, acima de tudo, temos que agradecer a generosidade dele estar dialogando com a gente, artistas completamente desconhecidos nesse cenário tão neoliberal e cheios de interesses como todos os outros mercados são e os artistas não estão livres disso. É isso. Viva André Abujamra!

Por que um reggae?

Há algum tempo fui visitar o músico e produtor Ricardo Prado em Piracaia e ele disse que estava afim de fazer um reggae desses das antigas que falasse sobre questões sociais, né? Um reggae de protesto. Coisa que perdeu um pouco de espaço. Saí de lá com isso na cabeça e peguei um poema que tinha escrito embaixo de uma cachoeira na cidade de Prudentópolis no Paraná e enviei pro João Mantovani e falei “o Prado quer um reggae. Vamos fazer um reggae!”. Então João completou a letra com versos seus e também com citações a versos da música “Borzeguim” do Tom Jobim e me enviou. E tínhamos um reggae.

E como foi o processo de gravação?

A gente estava no meio de um período crítico de pandemia. Mais de um ano dessa crise sanitária e a banda passou por uma reformulação. O percussionista e fundador da banda, Binho Siqueira, voltou ao seu posto. Caio Lopes entrando na bateria. E a gente com a ideia de gravar um disco pra falar do tempo: Há tanto tempo. 

Então começamos a gravar guias. O João em sua casa, o Doc (produtor musical e baixista) em sua casa, eu gravando os poemas num mic de lapela. E quando já estávamos vacinados começamos a gravar no estúdio do Doc. Sempre em gravações individuais, com o Doc e mais um de nós. Ganhamos essa participação do Abu que gravou do seu estúdio e nos enviou. O Nakamura foi colocando guitas e viola, para colocar uma estética mais interiorana do Brasil, gravando de seu home estúdio também. 

Convidamos Diogo Duarte para gravar trompete e o Willian Sprocati pro trombone e deu um brilho enorme e uma força aí que todo protesto necessita para lutar.

Fale um pouco sobre a letra e os poemas, principalmente o “poemito”?

Como falei, escrevi esse poema em janeiro de 2018 debaixo de uma cachoeira. O som dele saiu de uma música do Los Hermanos que o Rubi cantava: “de onde vem a calma daquele cara”. No poema original eu digo “de onde vem a mágoa / daquele ódio / vejo nos olhos dos deputados / que matam vidas / que matam gente”. E acabei mudando na letra, pois não são todos os deputados. Mas meu alvo na época era a bancada da bala, do gado, dos evangélicos, o centrão e um ser aleatório que era o Bolsonaro. E naquele ano de 2018 durante todo o processo de ascensão bolsonarista e todas as barbaridades que ele falou sobre explorar a Amazônia e sobre foder com os órgãos de proteção ao meio ambiente durante a campanha foi alimentando um som dentro de mim e lembro que em janeiro de 2019 ao ritmo dos meus passos após descer do busão, voltando pra casa me veio o poemito: “o mito mata a mata eu mato o mito”. Fiz um vídeo na época com minha voz dizendo o poema e as palavras aparecendo na tela e entrando frames de matérias sobre as falas do presidente. disparei pras pessoas e umas duas disseram: “o Arnaldo Antunes é foda hein!”

Daí como já disse aqui o João completou a letra dando uma esperança que eu não tinha e não tenho tanto e trouxe leveza pra canção e misturou ali versos de Tom Jobim, pois o maestro também era poeta. O André Abujamra escolheu trechos de duas canções dele do seu projeto sobre a água e a natureza.

E no poema final eu queria encaixar o poemito finalizando e numa raiva escrevi um poema defendendo nossa cultura, nossas mitologias, tirando do falso juiz o apito e matando o mito.

Por fim, me diga o que você espera para o Brasil? 

Eu não espero nada, pois não acredito numa mudança drástica. as elites continuam aí e Lula vai ter de conversar com elas, quase que apenas com elas. O neoliberalismo vai continuar sendo o modus operandi, mas no discurso vem a harmonia dos povos e em algum projeto que consiga ser aprovado vão voltar os auxílios para os mais pobres, pois a figura de Lula tem esse compromisso. Acho que a profissão dos artistas terá um mercado funcionando novamente, mesmo que seja apenas para uma panela, mas que gerará empregos. Torço pra que se estabilize a economia, pois no fim das contas o que nos importa é o preço final do alimento e tá difícil viver nesse país. E o mais saudável para o país é que a polarização acabe, que os discursos de ódios cessem e que aceitemos o resultado da próxima eleição assim como aceitamos na última.

Assista ao Curta-metragem “Água”

Fernanda Calandro
Fernanda Calandrohttps://gazetadiaria.com/
Profisisonal de Marketing de Conteúdo. Apaixonada por cachorros, comida, tecnologia, marketing, soluções simples e inovadoras. Online desde 1997 | Escrevo para web desde 2014. Contato: [email protected]

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